Trio Parada Dura – Taça de Ouro

Tem algo de podre no reino da Dinamarca. Em meados de 2007, um dos maiores trios da história da música sertaneja se separou. Como era dono do nome, o sanfoneiro daquele trio continuou a labuta e tratou de substituir os cantores originais por dois covers, isto é, dois cantores que nada mais fazem que imitar os originais. Mas as peculiaridades desse trabalho não residem somente nesse fato. E as nuances daquela separação começavam a ganhar contornos mais evidentes.

Creone, Barrerito e Mangabinha formaram por um bom tempo o Trio Parada Dura, criação do próprio Mangabinha. A interpretação sempre marcante do Barrerito, aliada a uma das melhores segundas vozes da história, mais a sanfona chorada característica, fizeram do Trio Parada Dura algo que provavelmente ninguém jamais conseguiu copiar. Depois do acidente sofrido pelo Barrerito, e que o deixou paraplégico, o grupo ainda persistiu, mas algum tempo depois o Barrerito optou por ceder o lugar ao irmão Parerito e seguir carreira solo. Desde então o grupo nunca mais teve o mesmo apelo junto ao público.

Barrerito faleceu e o grupo persistiu, com alguns percalços, idas e vindas, mas sempre na estrada. Eis que em 2007 acontece a estranha separação. Creone & Parrerito continuaram a parceria, assumindo o nome “Os Parada Dura”, numa evidente e de certa forma melancólica tentativa de continuar o trabalho do grupo. Enquanto isso, o Mangabinha já providenciava dois novos companheiros, “Leone & Leonito” (?) para também tentar continuar o esquemão do Trio. O fato é que ninguém, nem imprensa e nem o público, pareceu satisfeito com essa estranha atitude do Mangabinha. Ora, ele era o dono do nome, então se a formação original se esfacelou e ele manteve o nome, só pode significar que ele foi o responsável.

O fato é que outras coisas ficariam mal respondidas em toda essa história. Em agosto do ano passado, aposentou-se do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais o desembargador José Amâncio. O que isso tem a ver com essa história? Acontece que é esse desembargador aposentado quem praticamente financia esse projeto. Se não financia, qual seria a explicação para o fato de TODAS as músicas do CD terem sido por ele compostas? Além disso, ele ainda participa do disco tocando berrante em uma das faixas e fazendo uma declamação em outra.

Ora, teria sido, então, financeiro o motivo do esfacelamento do grupo? É no mínimo estranho o fato de que o grupo se desfez e exatamente um ano depois um desembargador recém aposentado praticamente assumiu as rédeas do antigo grupo. Não é um disco do Trio Parada Dura. É um disco do Desembargador José Amâncio com a interpretação do Trio Parada Dura. De semelhanças com o grupo, apenas a indefectível sanfona do Mangabinha e o timbre vocal, intencionalmente inserido para se fazer referência ao tradicional grupo. Entre as músicas, apenas composições pitorescas e com certo nível poético, é claro, afinal o homem é um desembargador.

A produção em si é meio decepcionante. Com instrumentos sampleados, de forma amadora, o som soa meio artifical, não fosse pela sanfona. E ouvir Leone & Leonito tentando ser Creone & Barrerito é ainda mais angustiante. Uma separação que pareceu movida, desde o início, por motivos financeiros, é claro que não poderia dar em outro destino. Sabe aquela velha história: “olha, eu ajudo, mas quero que façam assim e assado, as músicas minhas e tudo mais”? Pois então. O Mangabinha, dono da marca “Trio Parada Dura”, definitivamente mostrou que não é o pulso firme, não é quem segura a onda. Dessa vez quem manda é o Desembargador. Uma pena.

Nota: 6,0