Um ano foda para o sertanejo

Um ano foda para o sertanejo

O ano de 2011 ainda não acabou, mas a 45 dias do fim uma coisa pode ser dita com certeza: este ano é reconhecidamente um dos mais pavorosos de todos os tempos para a música sertaneja no que diz respeito à baixaria e à falta de criatividade, estimuladas pelo sucesso de uma canção, a famigerada “Sou Foda”. Por conta dessa música, o ano de 2011 vai ficar marcado como o ano em que boa parte das “novidades” da música sertaneja se resumiram a meras adaptações do segmento musical mais controverso do Brasil, o funk, com suas expressões xulas e tudo o que tem direito. Acima de qualquer adaptação de música nordestina, creio que adaptar o “funk” é o mais fundo que a música sertaneja já chegou…

Quando a música “Sou Foda” explodiu para o Brasil, via Internet, tratava-se apenas de um funkzinho bobinho com alguns trechos pesados e com um vídeo horroroso postado no Youtube pelo grupo “Avassaladores”, que acabaram ganhando até o VMB de webhit do ano. Pouco tempo depois de a música explodir no Youtube, algum sertanejo teve a incrível idéia de adaptar o hit do funk ao sertanejo. O que parecia inicialmente uma idéia bacana acabou se transformando numa mania idiota que acabou tomando conta do segmento sertanejo pelo resto do ano.

O que nem todo mundo sabe é que a música “Sou Foda” é, na verdade, um medley de dois funks: o “Sou Foda” do grupo Avassaladores e outro de sei lá quem chamado “Sequência do Pente”. A canção traz, além da palavra “foda” contida no título e alguns trechos com termos como “putaria”, uma estrofe inteira com a tal sequência do pente, que eu aposto que é cantada por muuuita gente que nem sequer sabe ou nem faz questão de saber o que significa. Na linguagem do funk carioca, “pente” ou “pentada” é o termo utilizado para se referir ao ato sexual propriamente dito. Não ao xaveco, ao flerte, ao beijo, mas realmente ao ato sexual, à penetração, “àquilo naquilo”. Enfim, uma canção recomendável a todas as famílias brasileiras.

“Pô, Marcão, mas você não disse que não tinha nada contra a baixaria?”. Longe de mim criticar a baixaria contida na música “Sou Foda” e em outros funknejos. Até porque ela é parte importante da música sertaneja, principalmente nos últimos 20 anos. As músicas de duplo sentido são um, errr, patrimônio cultural sertanejo. Mas não deixa de ser estranho e diferente imaginar nos bailões sertanejos as moças descendo até o chão com um microshorts ou uma minissaia curtíssima, bailarinas com o mínimo de roupa possível e um cara de chapéu, bota, fivela e camisa xadrez cantando músicas altamente ofensivas às mulheres mas que mesmo assim elas adoram, enquanto elas dançam da forma mais erótica possível. Para a macharada, é provável que essa realidade alternativa, que pelo jeito não está tão longe assim de acontecer, não fosse tão ruim assim, mas não creio que tenham sido estes os valores transmitidos pela música sertaneja ao longo de sua história.

Muita gente lamenta a adaptação, por exemplo, de hits nordestinos pelos sertanejos, às vezes até num grau pior do que as adaptações de funks. Mas se formos parar para analisar as músicas adaptadas, os “funknejos” ganham de longe no quesito “baixaria”. Uma das canções nordestinas adaptadas ao sertanejo mais atacadas do ano, “Ai se eu te pego”, não contém palavrões e nem coloca a figura feminina no mais baixo grau da “guerra dos sexos”. Seu único “defeito” (atenção às aspas) é ter a letra excessivamente simples e curta.

Acontece que eu ainda considero a apologia à baixaria a segunda pior consequência da música “Sou Foda” no segmento sertanejo. Afinal a baixaria sempre existiu no nosso meio. Acima disso, ouso dizer que o pior dos males trazidos por esta canção foi o estímulo a uma cada vez mais baixa criatividade. “Sou Foda” foi regravada ao mesmo tempo por dezenas de duplas e artistas e estimulou o surgimento de outras dezenas de respostas e mais um punhado de respostas às respostas, além de servir como estopim da mania que se alastrou entre os sertanejos (principalmente os de menor expressão) de adaptar os principais sucessos recentes do funk carioca.

Depois de “Sou Foda” e “Sequência do Pente”, contemplamos o surgimento de adaptações de “Tá tarada”, “Você, você, você…”, “O papai chegou”, “Pentada Violenta”, “Ela dá pra nóis porque nóis é patrão” e diversas outras pérolas do funk. Além é claro, das vááárias adaptações da própria “Sou Foda” em versões que se limitavam a simplesmente modificar a letra, sem alterar a melodia. Ou seja, meras paródias. Nessa linha, surgiram “Coitado”, “Sou de boa”, “Seu Foda” e outras, entre adaptações, respostas e respostas às respostas.

É sério. Se formos pesquisar “resposta da resposta de Sou Foda” no Youtube, não aparece apenas um resultado, mas vários. E tooooodos com a mesma harmonia. Fica parecendo aqueles trabalhos escolares de ensino fundamental onde você tem que fazer uma paródia sobre determinado assunto e a professora escolhe qual foi a melhor, sendo que seria muito mais fácil escolher o pior. Pode ter sido uma boa idéia no início, quando a primeira dupla ou artista sertanejo (que a essa altura do campeonato ninguém mais sabe quem é) gravou a música. Mas a partir do segundo artista a gravá-la ou qualquer outro funknejo, a idéia já não é mais inédita. Não passa de mais uma idéia copiada de outra pessoa, para variar.

O mais irônico nessa história é que mesmo sendo a música sertaneja mais antiga e geograficamente abrangente, o funk é bem mais respeitado enquanto “movimento cultural”. Ele é tradicionalmente reconhecido e defendido até por intelectuais como uma importante expressão cultural da periferia carioca. É inesquecível, para não dizer lamentável, o episódio em que o Caetano Veloso resolveu inserir em seu show um trecho da música “Um tapinha não dói”. O funk, de mera desculpa para bailes eróticos e estímulo à deterioração e desrespeito à figura feminina, ganhou a alcunha de legítimo movimento cultural, coisa que até hoje a música sertaneja, que obviamente atinge uma parcela “gigantescamente” maior da população brasileira, não conseguiu.

É de uma tristeza gritante assistir a jovens artistas sertanejos aproveitando uma “modinha” e gravando adaptações de funk uma atrás da outra ao invés de estimular o respeito à música sertaneja com músicas próprias, de preferência criativas e inéditas. É engraçado como simplesmente não percebem a artificialidade desta prática, ou a descartabilidade desse tipo de canção. Não dá em sã consciência para imaginar uma roda de sertanejos daqui a alguns anos na qual essas músicas sejam interpretadas. Tais músicas não vão ficar para a posteridade. Isto é tão certo quanto 2 mais 2 são 4. O problema é botar isso na cabeça dos jovens sertanejos. Preferem o “agora”, ao invés do “amanhã”. Se é para ganhar dinheiro, que seja então…