Um artista consegue se virar sozinho?

Uma das reclamações mais comuns nas recentes discussões sobre música sertaneja diz respeito à importância que se tem dado aos produtores musicais e a alguns profissionais não vistos com frequência. Algumas pessoas ficam assustadoramente indignadas por palavras como as ditas costumeiramente aqui no Blognejo exaltarem o trabalho realizado por profissionais como Dudu Borges, Ivan Miyazato, Pinnochio e companhia. Mas há que se perguntar: qual o motivo para tamanha indignação? O artista realmente é o único responsável pelo próprio sucesso? Quem mais deve levar crédito pelo sucesso alcançado por ele?

Ora bolas, não é novidade pra ninguém que um artista não é o único responsável pelo próprio sucesso. Nunca foi e nem será. Há, claro, que se ressaltar aquele pozinho de pirlimpimpim mágico que parece só cobrir os artistas nascidos para realmente brilhar, aquele ingrediente secreto que muita gente ainda não conseguiu decifrar qual é. Mas além do próprio artista e de seu talento, seja ele qual for, não dá para desprezar a sempre indispensável figura do produtor musical, do arranjador, ou do compositor, do empresário do artista, do radialista parceiro, do músico da banda e de mais uma série de personagens.

O produtor musical dá vida ao projeto. O artista não chega sozinho ao estúdio, vai para a frente do microfone e ao mesmo tempo para a frente da tela de um computador para recolher todas as faixas gravadas. Às vezes um artista incorpora também a figura do produtor, mas são pouquíssimos os casos em que isso acontece. No mais, sempre existe a figura daquele que vai conseguir deixar as canções escolhidas pelo artista para comporem seu repertório em condições nas quais uma rádio possa tocar e o público possa ouvir.

Nesse ponto também é importante destacar o trabalho do arranjador, que nem sempre é o próprio produtor ou o artista dono do referido trabalho. Para quem é leigo e não entende muito bem o que o arranjador faz, é dele que parte a idéia do arranjo (ou solo) de cada canção. E às vezes o arranjo de uma canção é crucial para sua identificação junto ao público. Alguém imagina, por exemplo, a música “Telefone Mudo” sem aquele indefectível solo de sanfona no início?

O que o artista é, também, sem um repertório decente e com condições de fazer seu trabalho reconhecido? É aí que entra a figura do compositor. Será que ainda tem gente que acha que o artista canta músicas que surgem do nada assim na sua boca e todo mundo adora? Prefiro não acreditar que ainda tem gente que ache que é assim que funciona. A maioria dos artistas canta músicas que recebem de uma série de pessoas que muitas vezes vivem disso, inclusive. São poucos os artistas que cantam unicamente as músicas compostas por si mesmos. A maioria dos artistas canta músicas que nasceram na cabeça de outras pessoas.

Muitos artistas não têm inteligência o suficiente para fazer seu trabalho ser conhecido em todo o Brasil. Pode parecer pesado falar algo assim, mas é verdade. Tem tanta gente boa que está por aí, cantando na noite, sem ter a mínima consciência do que precisa fazer para realmente engrandecer o próprio trabalho e sair dessa vida, que apesar de muito digna não rende o mínimo de reconhecimento. O empresário é o cara que vai realmente levar o artista para onde interessa, que vai tirá-lo do “pequeno” e levá-lo para o “grande”, que vai se encarregar de administrar a carreira do artista fazendo com que realmente renda o suficiente para que se considere um sucesso.

Com o trabalho pronto para cair na boca da galera, faz-se necessária a figura do cara que levará aquele trabalho até a boca da galera. Coitado do artista que acha que pode fazer seu trabalho conhecido sem tocar em rádios, ainda que apenas web-rádios. O radialista é o cara que vai medir corretamente a aceitação da música junto ao público. Jabás e presentinhos à parte, o radialista sabe exatamente o que o público está pensando. Afinal é ele que está recebendo pedidos de canções o dia todo e montando a programação.

O músico da banda vai acompanhar o artista durante a semana, praticamente se tornando a única família que o artista conhece. Fora que são os músicos que emprestam seus talentos nas gravações dos discos. Ainda que existam VS’s, notebooks com músicas e trilhas instrumentais totalmente gravadas, é o músico que dá vida à canção do artista durante o seu show. Afinal de contas, qual o artista que sobrevive apenas da própria voz durante um show? Nem a Paula Fernandes, por exemplo, com aquela voz hipnotizante consegue segurar um show sem um violãozinho que seja acompanhando, ainda que o seu próprio. Os únicos artistas que eu conheço que não precisam de bandas acompanhando são aqueles grupos vocais que imitam os instrumentos com a própria boca.

O Blognejo ficou conhecido por sempre valorizar o trabalho de quem está por trás do sucesso de um artista. Ora, é o mínimo que podemos fazer em reconhecimento a quem realmente faz com que um artista dê certo. Pode parecer idiota para a grande, imensa, incomensurável maioria dos fãs de música sertaneja. Muitos só estão interessados em olhar para o artista em cima do palco, cantar o último sucesso dele e encher o bucho de cachaça enquanto se divertem. O fato é que tem muita gente trabalhando duro pra fazer aquele artista subir no palco e fazer a alegria da galera. Não falei nem da metade aqui neste texto. Mas infelizmente tem gente alienada demais por aí pra realmente perceber isso e dar o devido valor.