Vendedor de música é compositor?

Vendedor de música é compositor?

Dia desses eu postei um vídeo brincando com a função de cada membro em um grupo de compositores e como alguns deles costumam não contribuir em nada na hora de criar as músicas. Nos comentários do vídeo, uma frase que foi bastante utilizada acabou me chamando a atenção: o “vendedor” é a figura mais importante.

Em primeiro lugar, não discordo. É bom eu deixar claro isso antes que alguém faça algum tipo de comentário negativo. De fato, o vendedor é uma figura de extrema importância na negociação das músicas com os artistas e empresários. É ele que tem os contatos certos e a forma correta de abordar essas pessoas, ainda que a fórmula seja basicamente meter uma pressão no possível cliente dizendo que outros artistas maiores já demonstraram interesse na música e se ele não fechar logo outra pessoa pode pegar a música antes dele. Incrível como a galera sempre cai nessa balela.

Acontece que até chegar nessa fase de ter força para entrar em contato com um grande artista e fazer esse tipo de pressão vai um bom tempo. Tornar-se um bom vendedor de músicas demanda realmente muito trabalho e dedicação. Mas a sua importância num grupo de compositores, por maior que seja, talvez seja a que mais me faz questionar de fato qual é a função de um compositor, afinal de contas.

Não nego que o compositor precisa ser um bom poeta, um bom músico e um bom vendedor pelo menos. Quando ele não é um bom poeta, ele precisa se aliar a um. Quando ele não é um bom músico, tem que arrumar um parceiro que seja. E quando não é um bom vendedor, precisa de alguém que tenha a manha da venda. Todas as demais funções (e peço desculpas antecipadas aqui a quem se sinta atacado nesse momento) são meros acessórios. Se você não escreve, não cria melodias e não vende, o que você faz afinal num grupo de composição a não ser sugar os outros?

Mesmo assim, é importante aqui levantar uma questão que atualmente tem sido quase que totalmente desconsiderada: o vendedor é, afinal, um compositor? Por que a gente aceita tão passivamente a ideia de que é normal que pessoas que não contribuíram efetivamente na criação de uma música assinem como autores da mesma? Se um vendedor apenas vendeu a música, porque ele assina como compositor? E nem preciso dizer que esse questionamento se estende a todos os outros membros do grupo que também não contribuíram para a criação da música.

A música, assim como um quadro ou uma escultura, é uma obra de arte, uma expressão artística. Sua criação provém do intelecto e talento humano. Quando outra pessoa que não o autor da música, o verdadeiro artista, assina a composição de uma música, ainda que com a anuência do próprio real compositor, ele está usurpando do real autor a autoria de uma obra de arte. E se em outras áreas da arte a figura do vendedor apenas exerce este papel e em nenhum momento assina a obra que vende, por que na música é diferente? Por que o vendedor não pode ser apenas o vendedor?

Entendam: eu não estou me referindo aqui a vendedores que de fato contribuíram na criação da música, mas a pessoas que apenas negociaram a música com artistas, produtores ou empresários.

Ah, Marcão, mas é justo que a pessoa que contribuiu para que a música fosse gravada tenha alguma compensação. Ora, claro que é justo. E é para isso que existe o instrumento jurídico da cessão de direitos. Um vendedor pode, através desse instrumento, ter direito a uma parte dos direitos autorais que serão recolhidos com a execução da música. As próprias editoras ficam com uma parte dos direitos autorais referentes às músicas que editam e mesmo assim a gente não vê nenhum de seus diretores assinando como autor nenhuma dessas músicas. O que impede o vendedor de também ficar com uma parte dos ganhos e continuar dando o devido crédito ao real criador da obra?

Eu sei o que impede: o ego. É bizarro que consideremos aceitável que pessoas assinem obras que não escreveram. Mais bizarro ainda é ver que tem muito compositor que aceita isso numa boa, tudo em prol da música ser gravada. Mas quem é que está disposto a abrir mão disso? Parece ser muito mais interessante se passar por compositor do que ser compositor de fato. Ter seu nome mencionado nos créditos de uma canção é algo que pra grande maioria traz muito mais satisfação do que saber de fato que criou mesmo aquela obra. Virou uma banalidade. Mesmo que a pessoa pudesse ter seu trabalho como vendedor (ou fazedor do café do grupo, fornecedor de vape, fornecedor do tereré, digitador, o que for) reconhecido de outra forma, a pessoa só se satisfaz com o nome dela aparecendo nos créditos ao lado de quem realmente escreveu a música. No fim, não se trata de talento e de reconhecer quem realmente tem, mas meramente de status.