Villa Mix e o fim do complexo de vira-lata do gênero sertanejo

Villa Mix e o fim do complexo de vira-lata do gênero sertanejo

Que o Villa Mix alcançou o status de maior festival sertanejo do Brasil, isso é inegável. Apesar da briga cada vez mais acirrada com eventos como o Festeja, o Brahma Valley e outros, é inegável que o Villa Mix segue sendo, em termos de infraestrutura, o maior festival de música sertaneja da atualidade. Mesmo assim, algumas mudanças recentes na estratégia do festival mostram que a intenção do Villa Mix parece mesmo ser ainda maior: a de romper as barreiras do gênero e, por que não, comparar-se ao Tomorrowland e ao Rock in Rio.

Parece até bobagem sugerir que um festival de música sertaneja possa se comparar ao Rock In Rio ou ao Tomorrowland. Aliás, faz parte da cultura sertaneja e brasileira diminuir a importância do nosso gênero perante o rock ou a música eletrônica. É o complexo de vira-lata. Mas o crescimento do Villa Mix ao longo dos anos é apenas um dos muitos exemplos de como a música sertaneja se tornou, de 2000 pra cá, o novo pop brasileiro e o gênero que mais agrada ao público jovem, que teoricamente é o público-alvo de qualquer festival de música.

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Por mais que o Villa Mix ainda dependa de suas atrações musicais e do casting da Audiomix, principalmente de Jorge & Mateus e Wesley Safadão, é interessante observar que, pelo menos na edição Goiânia, que serve como vitrine para as demais edições ao redor do Brasil, as atrações já têm sido deixadas em um teórico segundo plano para que o protagonismo seja mesmo do festival e de tudo o que ele tem a oferecer.

O palco do festival, que no ano passado já havia entrado para o Guiness Book como o maior palco já montado em um show, foi este ano, de novo, a principal atração da edição Goiânia. Foi sem dúvida o assunto durante e após a festa. E não há como não comparar com os palcos do Tomorrowland, que costumam ser também atrações à parte em cada um de suas edições ao redor do mundo, inclusive no Brasil.

Palco de uma das edições do Tomorrowland no Brasil: qualquer semelhança é mera coincidência.
Palco de uma das edições do Tomorrowland no Brasil: qualquer semelhança é mera coincidência.

Trata-se mesmo de mostrar que um festival de música sertaneja é tão capaz quanto um de música eletrônica de impressionar, visualmente falando. E se no comparativo com o Tomorrowland a disputa ficou entre os palcos, o Villa Mix já se prepara para uma futura “competição” com o Rock in Rio.

Durante a edição Goiânia, um anúncio feito sem alarde durante os intervalos entre os shows deu uma breve noção do que o Villa Mix está preparando para as próximas edições. Com dois dias reservados para 2017 e um projeto intitulado “Cidade Villa Mix”, que sugere que a edição Goiânia deve de fato assumir uma proporção maior e ser realizado em uma área própria em 2017, o festival traz para a sua realidade o conceito aplicado com sucesso há décadas pelo Rock in Rio e a sua “Cidade do Rock”.

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Mas se a intenção é comparar-se ao Tomorrowland ou ao Rock in Rio, é possível manter uma lineup predominantemente sertaneja? Bem, já não é de hoje que o Villa Mix coloca entre suas atrações um ou outro nome de fora do nosso gênero. Ivete Sangalo é um dos maiores exemplos. Sem falar que o Wesley Safadão é hoje um dos principais chamarizes do Villa Mix, fazendo a tradicional dobradinha com Jorge & Mateus como principais atrações. Além disso, a Anitta havia sido anunciada como atração da festa, mas ela declinou de cantar porque o vôo que possibilitaria que ela cantasse no horário reservado a ela atrasou. O horário oferecido em troca (o último) não estava de acordo com o cronograma da “diva”, já que ela tinha viagem marcada para o México mais tarde para um compromisso I-NA-DI-Á-VEL, rsrs.

Mas, sem dúvida, a grande demonstração de que o Villa Mix parece estar tentando, ainda que sutilmente, romper a barreira do gênero musical foi o status de mega atração dado ao DJ Alok, que é um dos cotados ao posto de melhor DJ do mundo e, já há alguns meses, é contratado da Audiomix. Ele realizou uma apresentação de uma hora no palco principal, entre o show “Clássico”, com Chitãozinho & Xororó e Bruno & Marrone, e o da dupla Matheus & Kauan. Uma ousadia e tanto do Villa Mix, que acabou sendo bem aceita pelo público, apesar da demonstração geral de cansaço depois que já havia passado pouco mais de meia hora de Tuntz Tuntz. Mesmo assim, trata-se de uma demonstração clara dessa intenção de mesclar gêneros de forma mais intensa em edições futuras. Outros DJs de renome, inclusive, já estão sendo cooptados para o casting do escritório.

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Por falar em Matheus & Kauan, é provável que a dupla tenha saído como a maior beneficiada da festa, já que entrou em um dos melhores horários, logo antes da dupla Jorge & Mateus, com direito a transmissão ao vivo pelo Multishow, consolidando assim seu status de novos queridinhos da Audiomix, que tem colhido os frutos do bom trabalho realizado com a dupla. Eles merecem, aliás, mais do que aplausos pela paciência demonstrada ao longo dos anos. Convenhamos, foi um bocado de tempo até que Matheus & Kauan chegassem a esse momento na carreira, com a merecida atenção do escritório. Ah, e a Anitta, claro, saiu como grande decepção do evento, já que sequer se apresentou.

Um Villa Mix de padrão internacional. Essa tem sido a óbvia meta da edição Goiânia ano após ano. E o investimento na infra-estrutura, que por vezes parece até exagerado, com certeza gera frutos, já que trata-se da melhor propaganda possível do festival e de suas demais edições realizadas ao longo do ano. O dinheiro gasto pra levantar toda essa estrutura é teoricamente recuperado nas edições itinerantes, que custam bem menos mas que levam às vezes até mais gente, dependendo da cidade. A ampliação do foco do Villa Mix parece mesmo ser a única alternativa no momento, já que o festival já se consagrou como o maior do gênero sertanejo. Resta agora explorar também as outras praias.