Yes, we can!!!

Fábio Dorneles e André Forastieri não se conhecem, não tomam cerveja juntos, mas cada um à sua maneira expressaram insights parecidos em recentes posts nos seus blogs. Fabio Dorneles comentou sobre como Victor & Leo infiltraram-se no repertório de cantores de barzinhos MPB e abriram caminho para a música sertaneja. Andre Forastieri desceu o sarrafo na nova moda folk, composta por nomes como Malu Magalhães e Vanguart.

Vou fazer a ponte entre os textos e aprofundar um pouco a questão.

yes-we-can

Uma coisa que sempre me intrigou e me revoltou é o fato de que o povo da MPB só valoriza regionalismos de raiz, ignorando os galhos de ricas folhas verdes e floridos da musica brasileira. Em termos de forró, Mestre Ambrósio “pode”, mas Limão com Mel “não pode”. Em termos de música gaúcha, Renato Borgheti “pode”, mas Balanço do Tchê “não pode”. Na música sertaneja, Renato Teixeira “pode”, mas Bruno & Marrone “não pode”.

Enquanto chafurda numa catatonia criativa que já dura décadas e recicla pela enésima vez a bossa nova, a MPB transformou-se algo chato, enfadonho e ensimesmado. Via de regra uma música escutada por pessoas chatas, enfadonhas e ensimesmadas. As pessoas que se acham cultas. Aqui no Brasil, pessoas cultas não escutam músicas que o povão escuta. “Deus me livre, aquela música vulgar, aquilo não é cultura!”

Porque isso ocorre?

A resposta pode ser encontrada na maneira como esse país foi construído e na forma com que nossas elites culturais se formaram. Ao contrário dos ingleses, que partiram para a América no intuito de construir uma nação, nosso país sempre foi tratado como uma colônia e a mente da elite cultural que nasceu aqui sempre esteve voltada para a Europa. Essa postura cimentou-se no inconsciente coletivo nacional e perdura até os dias de hoje.

Somente o que vem de fora ou que conta com o aval do que vem de fora tem valor. A bossa nova foi aceita porque acrescentou jazz ao samba, a tropicália porque acrescentou rock à musica baiana.

Os americanos, pelo contrário, sempre valorizaram o que era produzido em seu quintal. O jazz, o country, o blues. Popularizaram o termo folk para designar sua musica folclórica. Essa valorização permitiu sua evolução e eles criaram o rock, a música pop como a conhecemos e o hip hop.

A nossa elite cultural só valoriza sua música folclórica em termos acadêmicos, como objeto de estudo.A música popular brasileira, que de popular nunca teve nada, só incopora as influências regionais que eram tocadas lá longe no tempo, como se a distância temporal fosse sinônimo de autenticidade.

Só que à semelhança dos americanos, apesar de não valorizado, temos sim nosso folk. E como temos! E nosso folk é muito mais rico, diversificado e qualificado que o folk americano. Vou listar aqui as vertentes de nosso folk, de norte a sul: tecnomelody, brega, calypso, forró, axé, pagode baiano, arrocha, sertanejo, lambadão, pagode paulista, funk carioca, vaneira. Provalmente ficou coisa de fora.

Essas vertentes são ORIGINALMENTE brasileiras. Essas vertentes são VERDADEIRAMENTE populares. Essas vertentes são SOLENEMENTE ignoradas pelos artistas que dizem que tocam música popular brasileira. Por isso eu não reconheço o rótulo MPB. Por isso eu costumo me referir ao conjunto formado por todas essas vertentes como Musica Original Brasileira, ou POPMOB.

Até porque, por mais diversificadas que sejam essas vertentes, as facilidades proporcionadas pelas mídias digitais estão fazendo com que o diálogo entre elas seja cada vez mais intenso. Cada vez mais existem pessoas no Rio Grande do Sul escutando arrocha, em Goiás escutando forró, na Paraíba escutando funk.

Acredito no POPMOB como um novo e forte movimento, porque essas vertentes se deram bem no novo cenário que se impôs com as novas mídias e a inevitável pirataria. O pop rock e a mpb não souberam lidar com a pirataria e uma geração inteira cresceu sem escutar pop rock e mpb: a Geração POPMOB.

Essa geração é bem mais esperta, descolada e legal que a anterior. Quem escuta pop rock ou mpb não escuta sertanejo ou axé ou forró. No entanto, quem escuta sertanejo escuta também rock e mpb. No problems. A Geração POPMOB está sendo construída com bem menos preconceitos culturais que a antiga. Finalmente parece que, agora sim, o Brasil dá sinais de ser o país do futuro. Porque não criarmos, então, a música do futuro?

Sim, a Geração POPMOB pode.

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Timpin edita o site musical BiS MTV. Lá se fala de todo o tipo de música, sem um pingo de preconceito de gênero, de Djavan a Djavu. Comanda também o Cabaré do Timpim, onde fala sobra a verdadeira e original música brasileira.